Segunda-feira, 18 de Junho de 2007

Poema de aniversário

 

Para todos os que fazem anos em Junho, aqui fica um poema belissimo do cabo-verdeano José Luis Tavares:

 

CARTA A MIM MESMO
NO DIA DOS MEUS ANOS


Como poeta nasci já quase canónico
(vede se isto não tem seu quê de cómico),
fazem-me quase um preto gentio camões —
não ligueis, que amanhã príncipe dos anões

serei. É certo que não errei o fio à vida,
seus corsos e naufrágios — fui mais fundo
que os demais? — em modo assaz rotundo
percorri-lhe as voltas, os sustos, a recaída.

Saberão vez alguma que nesta escura feira
tudo é sombra e deriva? Que nem as agudas
razões do pranto desvanecem esta surdina?

Não te iludas com os louros na cabeleira:
mais depressa se rirão das tuas agruras
dizendo «outro que não escapou à sina».


José Luís Tavares

 

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publicado por Carpinteira às 10:04
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