Terça-feira, 27 de Março de 2007

Microficção - Afectos

 

 

Eram cada vez mais raros os instantes em que não estivessemos juntas, Alzira sentou.se perto da janela, cabisbaixa, sem fazer qualquer comentário à minha conversa

Aproximei.me e toquei.lhe na face

“Então amiga, o gato comeu.te a língua”

Ergueu a cabeça e pousou o queixo no meu ombro, Os olhos lânguidos gotejavam pequenas lágrimas. Continuava calada, mas eu sentia o coração dela saltitar, como se quisesse sair-lhe da blusa, Apertou o corpo contra o meu, e ficou ali, imóvel, a suspirar, sem dizer nada, como se um vínculo nos unisse desde sempre e nos tornasse cada vez mais dependentes

Por vezes incomodava.me o olhar furtivo, mas subtil com que observava o meu corpo enquanto me despia, Habituei.me, e comecei a achar natural a forma como nos encontrávamos no olhar, Os dedos e as pernas entrecruzados por debaixo da roupa, As vozes acariciando.se baixinho, enquanto construíamos puzzles desenhados por mim, e que ela recortava numa caixa de cartão canelado

Houve uma altura em que pensei tratar.se d’uma fantasia de adolescente,  curiosa, em busca d’uma aventura íntima com uma pessoa do mesmo sexo

publicado por Carpinteira às 21:15
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Quinta-feira, 15 de Março de 2007

Microficção - Passeio no parque

 

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Era um Domingo de primavera, Mariana convidou.me para um passeio no parque, onde soprava uma ligeira brisa que a espaços descobria o sol

O lago tinha perdido a transparência, e os cisnes entoavam cânticos fúnebres enquanto deslizavam na superfície verde, Alguns acostavam nas bermas, reclamando restos de comida aos velhos espalhados pelos bancos

Transístores aos berros debitavam a lenga.lenga do futebol, Portugal jogava com a Republica Checa e perdia por um a zero, No passadiço, uma mulher brincava com uma menina vestida de branco enfeitada com balões azuis, Solta.se um balão e vem cair junto de nós, mergulhei na relva como se tivesse efectuado uma grande defesa e segurei.o entre as mãos, A menina de branco vestida corria para mim impulsionada para o ar como se fosse levantar voo, Quando me aprontei a entregar.lhe o balão, fixou o olhar no meu, em silêncio, Senti na expressão dela, uma repulsa que desaprovava o meu gesto. Bruscamente, retirou.me o balão e rebentou.o

Do outro lado do lago a senhora chamava por ela aos gritos: ”Teresa, Teresa  Não te afastes”

Mariana olhou para mim com espanto e continuou a tagarelice pelo passado nostálgico, Eu fingia que a ouvia. Ela de vez em quando beliscava.me o braço e interpelava.me crispada

“Estás a ouvir.me, Estou para aqui a falar há tanto tempo, e tu não dizes nada.“

 

 

publicado por Carpinteira às 20:54
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Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2007

contos da goldra - Avatares do momento

 

 

As gargalhadas ressoaram pela taberna quando Lúcio entrou a cambalear, mas diminuíram de intensidade à medida que a expressão dele adquiria um tom mais grave, Sem demoras, arranca num solavanco, e pontapeia uma mesa violentamente, fazendo estilhaçar copos e garrafas pelo chão, Mariazinha, filha do taberneiro, postou-se intimidada no ombro do pai, Alguns homens embriagados saíam, Um deles, retirou bruscamente uma garrafa da prateleira junto ao balcão, e sorrateiramente, pé ante pé, aproximou-se do desordeiro, e desferiu-lhe um golpe traiçoeiro na cabeça,  Lúcio caiu no chão, inanimado, sem que alguém movesse uma palha, Os olhos esbugalhados sobressaiam da cabeça, movendo.se de esguelha pelo espaço infinito, Um frio imenso, inunda.lhe o corpo, a neve cobre.o em camadas finas de flocos azuis,  Subitamente, nas paredes da tasca, abrem.se brechas do cimo ao fundo, e um liquido azul viscoso, mistura-se no azul celeste do céu, adquirindo a forma de querubins com grandes caudas voando em círculos,  No relógio de cuco pendurado na parede, os ponteiros giram vertiginosamente em sentido contrário, como se quisessem atingir o tempo original, o ponto de partida,  Sons melódicos alternam com badaladas no sino da igreja, Há cânticos gregorianos entoados por figuras esquálidas, suspensas numa corda em torno do pescoço, Um mar de lama põe em deriva dejectos putrefactos, Mariazinha sente as bochechas aumentar de tamanho, ganhando uma parecença batráquia, Os braços enformam as patas de um animal estranho, metade-mulher-metade-sapo, Pula-de-um-lado-para-o-outro, Um gesto inútil faz deslizar suavemente a mão dela sobre a mão dele, enquanto o corpo inerte de Lúcio é impulsionado ainda mais para o fundo, penetrando pela camada espessa de lodo até lhe cobrir os ombros, Afunda.se lentamente e balbuceia sons guturais,  No derradeiro esforço, em demanda da lucidez perdida, surgem-lhe imagens macabras de lobos que devoram crianças no bosque e dizimam pastores e rebanhos por inteiro

 Escrito por Ismael Umar 

 

publicado por Carpinteira às 20:46
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Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007

Contos da Goldra - desventuras de Marilinda

 

 

Contava.se na cidade que, em tempos idos, não muito distantes, salvo.erro na década de 50, Marilinda tinha.se ausentado não se sabe para onde, e regressado prenhe, não se sabe de quem, Quando o corpo se deformou, a barriga se fez notar, houve logo no povo quem afirmasse,

“Hum, Quer.me parecer que o Tó Mouco fez das suas“

Outros sussurravam,

“Qual Tó Mouco qual quê, O filho é do padre, É ele o pai da criança, De certeza”

Marilinda era uma beata compulsiva, cultivava uma imagem sacrosanta, mostrava pudor e quantas vezes repulsa por tudo o que se afastasse da moral vigente, Quem lhe quisesse dar com o paradeiro, era vê.la em grande azáfama de casa para igreja e da igreja para casa, mesmo quando o ritual litúrgico não se verificava

As doenças eram o tema dominante na tagarelice com as outras beatas e com a tia Patrocinia,

D’uma simples enxaqueca, nevralgia, conjuntivite, ou dor menstrual, facilmente se chegava à diabetes ou cancro nos intestinos

O padre solicitava os seus serviços amiúde, fossem religiosos ou outros, como quem diz, domésticos. Por isso, o povo, depositário-que-é-de-saberes-ancestrais, malvadez e ignorância (qb), não deixava os créditos por mãos alheias, e vai daí, comentava à boca.cheia,

“Marilinda, Marilinda apanharam-te com a boca na botija”

Ora, da fama, a mulher não se livrava, A posição de cócoras, quando surpreendida no colo do padre, não parecia ser confessional, nem um exorcismo de pecados, Tratava.se, isso sim, da prática ostensiva de felacio, expressão latina, mais ou menos erudita que corresponde à designação de sexo oral, É verdade

Não deixara dúvidas no poviléu, E daí até à desgraça total ia um pequeno passo

E como uma desgraça nunca vem só, também corria outra versão q’atribuía a gravidez de Marilinda a uma relação incestuosa, que por economia narrativa e outros pormenores indecorosos ou d’ordem especulativa, aqui ficam por narrar

Escrito por Ismael Umar

publicado por Carpinteira às 10:47
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Terça-feira, 16 de Janeiro de 2007

Semáforo

 

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Duas da manhã, Páro em frente ao vazio numa artéria da urbe e tudo me parece inerte, fossilizado à minha volta, Uma natureza morta em forma de árvore nua e seca, dispõe.se a ordenar.me o sentido da vida, Pisca as cores vermelha, amarela e verde, exactamente pela ordem que se escrevem aqui, Há um tempo de espera não-se-sabe-bem-de-quê-e-por-quê, Não é possivel chegar mais além do espaço alcançado pelos sentidos, Fico à espera de Godot, num atrevimento teatral ou quiçá filosófico, traduzido em pensamentos e palavras balbuciados contra o pára.brisas

 

Muda de cor e passa a vermelho

 

Ainda ali estou, no virar de esquina, na subida íngreme, ou num cruzamento de vidas efémeras, A natureza morta continua corporizada num poste tricolor, como um indicador cénico, Tão breve, tão temporariamente exacta que chega a tornar.se fugidia, Figura arenosa pronta a esboroar.se ao mais leve sopro

 

Muda de cor e passa a verde

 

Desfaço.me definitivamente de Godot, e da espera contida de um nada ausente, Estou na linha de partida a um pequeno passo entre a vida e a morte, Revejo o espelho retrovisor e arranco directo ao futuro

 

publicado por Carpinteira às 10:20
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Quarta-feira, 10 de Janeiro de 2007

Contos da Goldra - Aniversário

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Era o dia de aniversário de Dália, O pai passeava com um copo na mão d’um lado para o outro da sala, e procurava o meu olhar por entre as cabeças dos convidados, A mãe bulhava com as travessas de pastéis de bacalhau e rissóis, interrompendo conversas pueris, enquanto zurzia frases com azedume

Estava sempre assim, mesmo quando não havia festa de anos

António, era o irmão mais novo de Dália, tinha o nariz e os olhos semelhantes a um corvo, o cabelo preto espigado empinava.lhe a nuca, tal qual uma ave de rapina, No dia de aniversário da irmã, passou o tempo pespegado nas saias da mãe, choramingava e cacarejava, reclamando não-se-sabe-bem-o-quê, Deixei um pé para trás na intenção acidental de o fazer tropeçar, ele topou e chamou.me porca.

O pai lançou.lhe um berro, e por segundos conseguiu amansá.lo

Na sala restava Dália, as velas do bolo, e meia dúzia de taças de champanhe vazias, A festa encaminhava.se para o fim, aproveitei o momento para me despedir

No meu encalce, veio o pai dela com a frase de sempre,

“Já vais Julia, Fica mais um pouco”

Acompanhava-me à porta, Dava-me um beijo na testa, e com a parte exterior das mãos acariciava.me o rosto, prolongando o movimento suave pelo pescoço até me roçar os seios, Deixava.me com aquela impressão táctil, sem outra explicação, que não fosse a de um gesto natural

Depois ciciava com a voz trémula

”Vai com deus filha. Vai com deus”

Escrito por Ismael Umar

publicado por Carpinteira às 16:35
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Sexta-feira, 5 de Janeiro de 2007

Contos da Goldra - O Lobo

 

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"Alzira ouvia sempre com atenção as histórias que o pai lhe contava junto à lareira

 

A primeira viagem que fiz pela montanha, o vento estava em tal desatino que me sacudia de um lado para o outro da vereda, enquanto o frio tornava insensiveis as mãos e os pés, À medida que avançava, o ranho escorria das narinas, cristalizando os pingos queixo abaixo, O pior foi as mulas, que resolveram permanecer estáticas, sem arredar pé,

Não me conformei com a decisão das bestas, e vai daí, encostei o ombro no traseiro da mais nova, tentando movê.la, mas aquele esforço, transformava cada impulso na inglória sensação de empurrar uma parede, Sentei-me numa pedra húmida e fiquei à espera que a birra lhes passasse

 

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Ao longe, um vento que cortava as faces, fazia ecoar um uivo pelo vale, Às tantas,  já no silêncio do entardecer, um ruído abanou as giestas, Um Lobo surgia ofegante d’entre os arbustos, Parou, sentou-se sobre as patas traseiras a observar.me, Senti o corpo tremer enregelado num misto de frio e de medo, As mulas suspenderam a birra, pareciam agitadas e prontas a reiniciar a caminhada

À memória chegavam.me histórias macabras de Lobos que devoravam crianças no bosque e dizimavam pastores e rebanhos por inteiro, Tinha na imagem, os homens da vila armados e organizados em perseguição à besta sanguinária

O Lobo no entanto continuava ali, Imóvel, Inofensivo, até que ergueu o focinho, lançou um uivo e afastou.se

“E depois” Perguntava Alzira

Depois, prossegui o caminho de regresso a casa.

Juntei assim mais uma história, a tantas outras sobre lobos”

 

Escrito por Ismael Umar                                                                 

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publicado por Carpinteira às 20:35
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